quinta-feira, 21 de maio de 2009

4° Ato - Despertar

Já notou alguma vez como é a vida de uma árvore? Sem brincadeira, já percebeu as similaridades dela à nossa?

Ao nascer, sai de sua proteção natural, frágil, despreparada, e então conhece o mundo. Como conseqüência deste choque, começa a sonhar e se conhecer melhor, crescendo guiado pelo sol.

Mais tarde, começa a fixar suas raízes justamente no lugar onde a pertence, amadurecendo seu tronco e criando galhos, conquistando carisma e a diferenciando das outras árvores. E assim a infância se apaga, e atinge a maturidade. E nada mais natural que uma jovem árvore querer atenção, e ela espalha suas folhas, mostra com orgulho seus frutos, e lança seu amor no ar, para ver se acontece de surgir algum efeito em outra criatura simpatizante, mas sem nunca saber se realmente foi bem-sucedida.

Nos dias ensolarados, se posiciona de tal forma que não se importa de proteger dos raios solares todos aqueles que necessitam dela, querendo ou não, ela sempre ajuda, enquanto nos dias frios, quase sempre fica sozinha, esquecida, “A criatura que se crie, a dona que se dane.”

Na primavera enfim floresce novamente e joga suas flores e frutos para os outros lembrarem dela, marcando sua imagem à suas memórias, o que a faz sentir-se especial neste momento, enquanto no Outono ela adormece, se fecha para o mundo, afinal ninguém pode ajudar-la, faz parte da vida, e assim ela espera essa fase passar.

Nos dias chuvosos e ventosos se segura a agüentar a turbulência, enquanto nos dias de calmaria parece dançar, se mexendo e relaxando como uma criança que fica boiando na beira da piscina. Na luz do luar, muitas vezes brilha e parece dar aquele respiro fundo, no silêncio, como aguardando algo acontecer.

Mas a vida não é eterna, e ela um dia acaba. A árvore envelhece. Seu tronco fica seco, cascudo, alguns galhos são arrancados dela, pois está atrapalhando o outro e não serviam para mais nada de útil. Crianças a escalam e a dominam, mostrando-se superiores a ela, enquanto ela nada faz. Sua camada começa a ser marcada com canivetes de dois gumes por casais que insistem em marcar-la. Suas folhas arrancadas uma a uma sem nenhum motivo importante. Pássaros vêm como parasitas e se apropriam dela, fazendo seu ninho, e depois vão embora sem nem olhar para trás, enquanto espera ansiosamente pela chuva para poder respirar, já que todos esqueceram de sua fonte de vida. Enfim, morre. Seca. Robusta e de pé. Morre sem mudanças. Morre sem alcançar sonhos. Morre totalmente indiferente com a situação, confortada e acomodada no presente, nada além disso importa afinal.

Árvores como essa que teve uma vida limitada estão sempre ao nosso redor. Certas vezes não crescem tanto, pois sem seus galhos, ficam limitadas aos arbustos. Tem aquelas que crescem demais e ficam muito altas, e por culpa dessa ganância por espaço são derrubadas. Tem aquelas que nem saem do chão, prefiram ficar protegidas e não se aventuram na sua vida, como uma gramínea. Temos conhecimento de certas frutíferas que se criam apenas com um propósito de vida, e depois e conseguir murcham e morrem. Tem as que sonham alto, visam conquistar o céu, mas não saem do chão, como girassóis. Existem vários tipos de plantas, mas a história é basicamente a mesma.

Ainda bem, existe uma solução. Há ao nosso redor, pessoas camufladas que são capazes de salvar qualquer árvore. Capazes de fazer uma grama se transformar em um mangue. Essa figura é o Semeador. Ele tem liberdade para se movimentar onde quiser, aponta seus sonhes em qualquer direção, contra ou a favor do Sol. Ele acolhe árvores, semeia carinho e atenção, e colhe as sementes que lhe são fornecidas. Diferentemente dos jardineiros, que moldam a árvore como um objeto, o Semeador é o moldado.

Fui uma árvore. Não muito grande por sinal, porém frutífera. E foi graças a um pequeno botão de rosa que arranquei minhas raízes e me formei um Semeador. Um Semeador que não crê em destino, um Semeador que sabe que o futuro pode ser alterado baseado nas suas decisões e que não vai crescer em apenas uma direção. E um Semeador não deixarei mais de ser, pois num mundo como o que vivemos, cheio de galhos, árvores, gramas e briófitas, ser Semeador é o menos cômodo, mas ainda assim, o mais satisfatório.

 

Tiago Brugnera

segunda-feira, 18 de maio de 2009

3° Ato - Ying Yang


Quero falar, mas me faltam palavras.
Quero sentir, mas me falta harmonia.
Quero liberdade, mas me falta racionalidade.
Quero fugir, mas me faltam caminhos.
Quero a luz que existe nas trevas.
Quero as trevas onde existe a luz.
Quero lembrar, mas não posso...
Na verdade, posso lembrar, mas não quero.
Afinal, palavras eu consigo, me falta falar.
Harmonia irá de voltar, me falta sentir-la.
Racionalidade é minha natureza, liberdade está na minha mão.
Caminhos se abrem na minha frente como um leque todos os dias, só me falta escolher qual.

Pensando melhor, eu não sei o que eu quero.

Tiago Brugnera

terça-feira, 12 de maio de 2009

2° Ato - Estigma

Algo não está certo.

Brincando com minhas memórias,

Calo-me.

Deixo-me acomodar.

Enquieto-me.

Fazendo alguma prosa com uma caneta,

Ganho tempo,

Habilmente tento aproveitar tal tempo como refúgio.

Intrigo-me.

Jurando por Deus ou outras ilusões não lembrar, mas...

Lembro-me! E isso me fere.

Minto para os outros,

Nego a saudade,

Oculto o sentimento,

Perco o controle,

Quero e não quero,

Rio da vontade, ignoro as mentiras.

Sorrio, brinco, pulo, penso e choro.

Teimo, grito, como, sonho e enquieto-me novamente.

Ultrajante este modo de agir, e então acordo.

Valorizo-me finalmente.

Xícaras e xícaras de café me lembram e me fazem esquecer, enquanto eu

Zelo pela minha vida a superar esta estigma.

  Tiago Brugnera

1° Ato - A Lua e a Terra

Anteontem foi uma noite, como qualquer uma dessas noites, porém diferente das outras convencionais, em que eu olhei para a Lua cheia. Ela estava linda como sempre, lembrando pérolas em meio a areia, e apreensiva como uma noiva jovem esperando seu homem a alcançar no altar. Porém, desta vez ela não estava alegre, ela estava triste. Eu pensei em me comunicar mas me faltou coragem para lhe perguntar “Lua, por que estás mal?”, mas mesmo assim como de costume não teria uma resposta dela. Neste instante me lembrei das últimas três vezes que a contemplei.

A primeira era fins de inverno, início de primavera. Eu estava com um pouco de frio e ela estava brilhando alegre, faceira, como um irmão caçula danado querendo chamar atenção do primogênito, linda, misteriosa, com várias nuvens tentando ofuscar seu brilho, mas sua felicidade era tamanha que nada conseguia impedir seu clarão como imperadora, que fazia a Terra tremer, eu olhava então esperançoso, apaixonado por ela e sua dança imóvel enquanto me fugiam sorrisos de satisfação e ansiosidade pelos momentos que viriam chegar em breve. Tão breve, como se meus desejos e fome por felicidade explodissem bastando um suspiro, e assim a Lua logo depois esqueceu a presença do Sol, se pôs a frente dele e ficou de frente para a Terra provocando um eclipse geral, onde cada momento era marcante e seria lembrado para sempre. E como uma estrela cadente, o eclipse se foi e só voltaria a acontecer tempos depois. Voltaria, mas não voltará, porque a vida é uma variável. E que variável hein? Vale lembrar que toda variável se baseia em uma constante, mas... porém... contudo... embora... entretanto... o que era constante, se formou uma incógnita. Decidi deixar a Lua em paz aquele dia, ela estava feliz e nada tiraria essa felicidade dela.

Outro dia, eu estava mergulhado em carência, amparo e desespero, sentia medo do amanhã e mais medo ainda do HOJE, então fui recorrer ajuda à Lua, a minha linda Lua, mas, ué? Cadê ela? A Lua estava tão cheia do Sol que virou nova. Desaparecida em meio à escuridão, procurando o máximo se camuflar entre nuvens e luzes estelares, ficava quieta. Já que minha linda Lua não podia me ajudar, procurei diversão nos anéis de Saturno, calor em Vênus e Mercúrio, abri caminhos para Plutão, mas puxa, ele foi ignorado e não era mais reconhecido pelo sistema atual.

Então um tempo se passou e eu sentei, aflito e solitário, fiquei a esperar a volta da minha amada lua, e ela apareceu em estado minguante, parecendo olhar para o lado esquerdo do mundo procurando seu coração para tomar alguma decisão, enquanto a Terra ficava imóvel, sedentário, apenas acompanhando a onda da órbita ao redor do sistema, do Sol, e chamando a Lua para iluminar seu lado sombrio.

E então, a Lua reaparece no céu brilhando forte no estado Crescente. Como se estivesse olhando para o futuro, brilhando sem medo, mas também sem responder minhas perguntas como “Lua, você algum dia virá a Terra?”, mas o que importava é que ela sorria novamente, um sorriso incentivador, que eu pensei comigo mesmo “Lua, você me deu forças para tentar de novo”. E ela continuava sem me responder nada.

Corria para frente, mas patinava no lugar como um movimento de translação,  e comecei a andar para trás, olhando para frente mas recuando, recuando até antes dos obstáculos os quais eu não conseguiria mais superar. E eu recuava sem saber o motivo até me dar conta que eu estava errado, o tempo todo, a Lua não sorriu sinceramente, olhando para ela de novo eu via um sorriso perturbado, inspirado em Da Vinci, um sorriso sem sorriso, afogado por estrelas que queriam brilhar mais que ela, e então ela cansou... fechou o sorriso... e uma nuvem de chuva a escondeu mais uma vez.

Nos tempos atuais, a Terra fica vendo a Lua dançando e vivendo sua luz, enquanto começa a invejar o quão próximos o Céu é do Mar. Ela fica procurando a Lua todas as noites, enquanto eu fico me mordendo a consicência perguntando “Lua, você é importante para mim, para a Terra, para todo o sistema. Como eu posso te alcançar e te trazer mais perto da gente?” e ela nada respondia, apenas ficava parada no céu, me olhando. E hoje ela está cheia novamente, mas seu brilho que fazia com que os outros corpos celestes a invejassem e tentassem imitar seu brilho aos olhos da Terra, está desmotivado, ou triste, ou escondida, como se tivesse sido roubado por uma sereia e seu encanto mortal. Porém, novos eclipses irão acontecer, mas estas serão ainda mais escuras, enquanto a Terra procura, distante da Lua e do Sol, uma maneira de renascer. E isso irá acontecer de fato, sem variantes, incógnitas, porquês e talvez, pois ela continua a girar. E esse novo encontro da Terra com um outro Satélite será reconhecida por todos, sejam astros, estrelas, cinturões. Seria então um novo Gênesis? Ou o Apocalipse? Essa é uma pergunta que só a Lua responderá.

 

 

                                                                                                              Tiago Brugnera