Já notou alguma vez como é a vida de uma árvore? Sem brincadeira, já percebeu as similaridades dela à nossa?
Ao nascer, sai de sua proteção natural, frágil, despreparada, e então conhece o mundo. Como conseqüência deste choque, começa a sonhar e se conhecer melhor, crescendo guiado pelo sol.
Mais tarde, começa a fixar suas raízes justamente no lugar onde a pertence, amadurecendo seu tronco e criando galhos, conquistando carisma e a diferenciando das outras árvores. E assim a infância se apaga, e atinge a maturidade. E nada mais natural que uma jovem árvore querer atenção, e ela espalha suas folhas, mostra com orgulho seus frutos, e lança seu amor no ar, para ver se acontece de surgir algum efeito em outra criatura simpatizante, mas sem nunca saber se realmente foi bem-sucedida.
Nos dias ensolarados, se posiciona de tal forma que não se importa de proteger dos raios solares todos aqueles que necessitam dela, querendo ou não, ela sempre ajuda, enquanto nos dias frios, quase sempre fica sozinha, esquecida, “A criatura que se crie, a dona que se dane.”
Na primavera enfim floresce novamente e joga suas flores e frutos para os outros lembrarem dela, marcando sua imagem à suas memórias, o que a faz sentir-se especial neste momento, enquanto no Outono ela adormece, se fecha para o mundo, afinal ninguém pode ajudar-la, faz parte da vida, e assim ela espera essa fase passar.
Nos dias chuvosos e ventosos se segura a agüentar a turbulência, enquanto nos dias de calmaria parece dançar, se mexendo e relaxando como uma criança que fica boiando na beira da piscina. Na luz do luar, muitas vezes brilha e parece dar aquele respiro fundo, no silêncio, como aguardando algo acontecer.
Mas a vida não é eterna, e ela um dia acaba. A árvore envelhece. Seu tronco fica seco, cascudo, alguns galhos são arrancados dela, pois está atrapalhando o outro e não serviam para mais nada de útil. Crianças a escalam e a dominam, mostrando-se superiores a ela, enquanto ela nada faz. Sua camada começa a ser marcada com canivetes de dois gumes por casais que insistem em marcar-la. Suas folhas arrancadas uma a uma sem nenhum motivo importante. Pássaros vêm como parasitas e se apropriam dela, fazendo seu ninho, e depois vão embora sem nem olhar para trás, enquanto espera ansiosamente pela chuva para poder respirar, já que todos esqueceram de sua fonte de vida. Enfim, morre. Seca. Robusta e de pé. Morre sem mudanças. Morre sem alcançar sonhos. Morre totalmente indiferente com a situação, confortada e acomodada no presente, nada além disso importa afinal.
Árvores como essa que teve uma vida limitada estão sempre ao nosso redor. Certas vezes não crescem tanto, pois sem seus galhos, ficam limitadas aos arbustos. Tem aquelas que crescem demais e ficam muito altas, e por culpa dessa ganância por espaço são derrubadas. Tem aquelas que nem saem do chão, prefiram ficar protegidas e não se aventuram na sua vida, como uma gramínea. Temos conhecimento de certas frutíferas que se criam apenas com um propósito de vida, e depois e conseguir murcham e morrem. Tem as que sonham alto, visam conquistar o céu, mas não saem do chão, como girassóis. Existem vários tipos de plantas, mas a história é basicamente a mesma.
Ainda bem, existe uma solução. Há ao nosso redor, pessoas camufladas que são capazes de salvar qualquer árvore. Capazes de fazer uma grama se transformar em um mangue. Essa figura é o Semeador. Ele tem liberdade para se movimentar onde quiser, aponta seus sonhes em qualquer direção, contra ou a favor do Sol. Ele acolhe árvores, semeia carinho e atenção, e colhe as sementes que lhe são fornecidas. Diferentemente dos jardineiros, que moldam a árvore como um objeto, o Semeador é o moldado.
Fui uma árvore. Não muito grande por sinal, porém frutífera. E foi graças a um pequeno botão de rosa que arranquei minhas raízes e me formei um Semeador. Um Semeador que não crê em destino, um Semeador que sabe que o futuro pode ser alterado baseado nas suas decisões e que não vai crescer em apenas uma direção. E um Semeador não deixarei mais de ser, pois num mundo como o que vivemos, cheio de galhos, árvores, gramas e briófitas, ser Semeador é o menos cômodo, mas ainda assim, o mais satisfatório.
Tiago Brugnera
Tiago surpreendendo com os textos. :*
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